Sejam bem-vindos!
Prof. Aristeu Rodrigues saiba mais
V Prêmio Nacional de Contos e Crônicas, 2003
Extremidades dos membros inferiores...
Como se fosse mole, já no primeiro dia, “ele” leva uma agulhada, ao sangrar alguém disse: - É o suficiente, com isso verei se és saudável, se terás futuro... O “todo” chorou, gritou e se apavorou, pois não sabia ainda que esta medida era por amor à própria espécie...
Depois de alguns dias, aparecem uns vultos, não é “ele” não, a distância “dele” até os olhos é a maior em relação aos outros membros, ainda era cedo...
Todavia se a mão é revelada primeiro, por outro lado, “ele” é tido como herói, afinal, “ele” a conduz pela vida inteira, pelo mundo afora...
“Ele” é um indicador de sucesso, sua anatomia aponta sempre para frente, com movimentos alternados parece querer decolar. Quando se junta ao seu par, a seta se forma, o futuro o
espera, a esperança se instala.
Trata-se do sustentador do “todo”, carrega o peso total do “ser”, garante o equilíbrio no andar, no correr ou até na imobilidade, esperando as ordens que vêm sempre de cima.
No cair da noite, quando a hierarquia maior se nivela, o sentimento é de egocentrismo ou de inutilidade, se sujo, não contamina o lençol, a posição favorece...
Se “ele” é de alguém que não enxerga, coitado, é o primeiro a cair no buraco, ou chocar-se frontalmente com uma sarjeta ou outros objetos. Se um cãozinho se aproxima... ai ai ai...
Ainda pequeno, na banheira, adivinha quem mergulha primeiro? Se a água estiver quente... Meu Deus, coitado!
Um dia “o” acusaram de exalador de odor, pudera, o cobrem com couro de cadáver, desfilam em asfalto quente, se chove então fica exposto, a enxurrada o cobre...
Raramente olham para “ele”, embora sabendo de sua real importância, não se pode evitar que durante o banho todas as impurezas recaiam sobre “si”...
O chão é seu maior companheiro, nem sempre o melhor amigo, mas quando se distanciam, um do outro, o medo se instala, o “todo” fica sem chão...
Suspeita-se de que há um vilão nessa história toda, mas qual órgão, ou membro, chama para si a responsabilidade maior na harmonia do “todo”, que está sobre a plataforma que sofre o maior efeito da gravidade do planeta! Oh, soberano...
Volto a falar das roupas que “o” cobre: se de mulher, pintam as pontas, cobrem-no parcialmente com pano, couro, fibra ou outros materiais sintéticos e - por uma questão de estética -
colam por baixo “dele” uma escora, para que o “todo” fique mais elevado. O equilíbrio fica prejudicado, no entanto optase por mantê-lo assim.
Insisto em falar das roupas “dele”: se de homem não é muito bem cuidado, cobrem-no com couro cru e, às vezes, com um cordão reforçado, amarram-no, apertam-no até quase estrangulá-lo, sua libertação só ocorre ao anoitecer... ou madrugada a fora...
Se ele pertence a um atleta, oh que missão!Ora sua função é imprimir velocidade, ora seu papel é chutar um couro em forma de esfera, despertando alegria em uns, tristeza em outros... de lambujem, gera emprego...
Nas mais variadas situações, “ele” se destaca como protagonista, conduz muitas vidas se pertencer a um condutor de coletivos, acelera e, transportando sonhos pelas estradas do mundo, estimula o progresso.
Diz a lenda que um menino tinha um só, era veloz, a sobrecarga o tornou mais forte, a exemplo dos desafios da vida que torna o homem, às vezes, um “ser” inexorável, indiferente...
Vinho; bebida nobre, sua matéria prima é esmagada por “ele”. E nas procissões? Um encontro coletivo! Ao cantarmos o nosso venerado hino, antes do início, pronuncia-se o seu nome, também é símbolo de sustentação de objetos: cadeira, sofá, mesa...
Um dia um “HOMEM” “o” lavou, não o seu próprio, mas o de um semelhante, tornando-“o” um símbolo de humildade e de reverência, por falar nisso, quando o “todo” se ajoelha, ocorre um dos poucos momentos em que “ele” aponta para baixo...
Mendigar não é sonho, é realidade para muitos, “ele” se destaca, também, como ferramenta essencial rumo ao objetivo inexistente.
Ira! Palavra aterrorizante, quando impregnada na alma, é instintiva a reação de se chutar o vento para aliviar o estresse.
Oh destino cruel, sabes que dói mais um calo “nele”, que a fratura exposta em um outro, exclui-se deste episódio o seu parceiro.
Bípedes! Somos reconhecidos como tal, quem garante que fomos sempre assim? Há quem diga que não! Sobre “ele”, cá estamos e sob “ele”, a glória do passado de milhares de anos herdados, de conquistas e de histórias da evolução.
Fumar é preciso? Além do mal que causa ao “todo”, uma ponta acesa, atirada ao chão, é uma ameaça a “ele”, quando desprovido de couro, plástico, fibra e borracha.
Ainda no ventre, a mãe diz com orgulho: O espaço é insuficiente! O meu filho já “o” usa, buscando liberdade, chutando-me as costelas.
Superação! Quando não se tem a mão, “ele” é usado para se alimentar, escrever, maquiar, pintar... Na água, se alinha ao todo harmonizando o movimento e se higienizando ao mesmo tempo.
Nunca se ouviu falar que alguém “o” tenha dispensado ao supor inexistir sua importância, é instintiva a reação e expressão de dor, quando detecta-se a presença de uma pedra entre a sola e “ele”, faz curvar o pobre e o nobre, revelando o
princípio da igualdade.
O absoluto e soberano, que durante a vida inteira sugeriu, ao “todo”, ir em frente em forma de flecha, de repente, aponta para o céu, manifestando o desejo de consolidar sua missão... Cessa o movimento...
Assim congratula-se o grande dia da Paz... “Ela” é construída, por seres, sobre a plataforma fantástica, incomparável, “ele”... Quem sabe, no futuro, além do dia da paz, tenhamos, também, o dia do “PÉ”...
Aristeu Rodrigues
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